Carnaval é a festa do povo. Dou uma pequena pausa no futebol antigo da terra para relembrar um pouco do reinado momesco principalmente das décadas de 40 e 50, quando os desfiles eram na Avenida Eduardo Ribeiro, até hoje o local sempre lembrado e relembrado, o preferido dos mais antigos. Estou, portanto, mudando o tema do Baú para homenagear o Rei Momo, Primeiro e Único.
Não vou contar como nasceu o carnaval porque sinceramente não sei, mas pelo que tenho lido, é provável que esse divertimento tenha sido introduzido no Brasil pelos portugueses no século XIX. Li também que até os fins do mesmo século o carnaval caracterizou-se pelo “entrudo”, uma brincadeira de rua muito alegre, porém de certa forma violenta, durante a qual os foliões atiravam uns aos outros, água, farinha, ovos, etc. No Rio de Janeiro os festejos tornaram-se mais amenos em 1885, quando surgiram os carros alegóricos.
Aqui em Manaus, quando os desfiles eram na Avenida Eduardo Ribeiro, tenho a impressão que as festas eram bem melhor para o povo brincar e assistir. Tudo começava bem cedo, às quatro da tarde. Os carros da época, de capotas arriadas, com belas jovens ostentando bonitas fantasias, algumas com máscaras, a descer e subir a Eduardo Ribeiro, atirando serpentinas e confetes. Aqui e ali um carro alegórico, sempre esperado com muita curiosidade pelos assistentes que se colocavam nas calçadas debaixo do sombreado dos benjaminzeiros (isentos da praga dos “lacerdinhas”), sentados em cadeiras que traziam de suas casas.
Carros alegóricos da Fábrica de Cerveja Miranda Corrêa, destacando a tão saborosa XPTO; do J.G. Araújo, jogando para o povo os famosos saltos de borracha pura, Coroa; da Fábrica Andrade distribuindo garrafas do seu apreciado Guaraná Andrade; do Luso Sporting Clube, sempre preocupado em superar o da União Esportiva Portuguesa; do Ideal Clube numa sadia rivalidade com o do Atlético Rio Negro Clube, sempre garbosa, com bonitas garotas. Por fim, o do Nacional Futebol Clube, que arrancava muitos aplausos do povão, com ornamentação pobre porem esbanjando alegria em cima de carrocerias de velhos caminhões fumacentos. Era um carnaval, queira ou não, muito mais alegre, muito mais divertido, muito mais festa do povo.
Nos carnavais dessa época, despontava com grande animação na avenida, o esperado grupo “Mocidade”, que anualmente apresentava uma novidade no último dia da festa, sempre guardada no mais absoluto sigilo, o tema a ser exibido. Tenho lembrança de seus desorganizados carros, sempre confeccionados na Serraria do saudoso Jackson Cabral, lá em Educandos, com a assistência de uma turma saboreando a gostosa batida de taperebá, enquanto o Luís Cabral preparava os brincantes, só coroas, quase todos antigos desportistas do futebol, basquetebol, voleibol ou mesmo dirigentes.
O grupo Mocidade durou exatamente 25 anos. Saiu pela primeira vez em 1953, com o tema “Branca de Neve e os Sete Anões”, caracterizado pelo Dr. Luís (Lulu) Cabral. Todo o material utilizado para a confecção dos anões, procedia do Rio de Janeiro e, na preparação do carro a turma estava lá com a batida de taperebá, consumida num abrir e fechar de olhos.
Durante os 25 anos de desfile, o Mocidade apresentou os mais variados temas, tais como Cangaceiro, Ciganos, Lavadeiras, Donas de Pensão, Babuínos, Só Deve Quem Compra, uma sátira ao antigo quadro do programa de televisão de Silvio Santos “Só Compra Quem Tem”, e Maternidade que alcançou muito sucesso, pois além de seus componentes representarem com uniformes de enfermeiras e médicos, o carro era dotado de berços, com fraldas e as respectivas mamadeiras contendo um líquido amarelado e espumoso, consumido pelos bebês em poucos segundos.
O saudoso Mário Bacalhau, velho morador de São Raimundo, fiscal da Prefeitura e um dos participantes efetivo do grupo, servia de babá e responsável, portanto, em abastecer as mamadeiras, o que lhe causou estafante trabalho durante as duas horas de desfile.
O último desfile do Mocidade ocorreu em 1978 e os “jovens foliões” fizeram questão de repetir o tema do primeiro, o de 1953, com “Branca de Neve e os Sete Anões”. Foi a despedida do grupo e por isso cada um de seus participantes recebeu das mãos do então Prefeito Jorge Teixeira, medalha de ouro em reconhecimento a alegria que deram ao nosso carnaval ao longo de 25 anos.
Foram contempladoa: Flávio Augusto, Raimundo Bertuceli, Mário Orofino, Andréa Limongi, Flaviano Limongi, José Maria Bichara, Theomário Pinto, Mário Bacalhau Bittencourt, Nelson (Cachimbinho) Bentes, Almério Cabral dos Anjos, Alfredo Tetenge, Miguel Jorge, Pedro Bichara e José Barros.
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Author: Carlos Zamith
1 comment
Um verdadeiro baú de tesouros da história de Manaus. Um brilhante regate da história do carnaval em Manaus nos mínimos detalhes. Essa semana vou dar aula sobre o carnaval no Amazonas e esse artigo colaborou muito no meu planejamento, meus parabéns pelo trabalho!
10 de fevereiro de 2015 14:54 ||