22 de fevereiro de 2012

Minha passagem pelo Exército

clip_image002Incorporado ao Exército dia 21 -02-1947, logo após a II Guerra Mundial e excluído em 15-12-1947. Embora arrimo de família não consegui escapar. No dia da apresentação, no pátio interno do Quartel do 27º B.C., onde hoje é o Colégio Militar, aproximadamente 800 convocados estavam lá aguardando as ordens.

Um oficial, montado num cavalo, começou a apontar para o grupo dizendo “vou escolher 10 homens”: “você aí, para cá, você aí também”. Quase desmaio quando ele apontou para mim, e disse:

“você também”. O pior veio depois: “Vocês dez vão para Cucuí”.

Tentei uma fuga, mas no portão do Quartel a Sentinela atravessou um fuzil na minha frente e falou: daqui não sai ninguém. São ordens.

A SALVAÇÃO

Na firma JG, Secção de Modas, trabalhava um meio-crioulo chamado Amadeu Silva, que nas horas vagas gostava de cantar músicas do Orlando Silva em serenatas, convidado por amigos. Sabia que o Amadeu (que por muito tempo também trabalhou na loja A Cearense, até morrer) tinha boa relação com o Major Freitas, um baiano bom de papo, comandante da 29 C.R. e contei a ele o meu drama.

O major era freguês da loja de Modas do JG e sempre atendido pelo Amadeu que lhe contou a minha história. Recebi o recado para ir até a 29 C.R. falar com o Major Freitas. Lá cheguei na hora marcada. Esperei uns 40 minutos e recebi um ofício lacrado, com a recomendação “Vá ao Quartel e entregue este ofício ao Comandante (não lembro o nome dele) e espere a resposta”.

Esperei quase três horas. Fiquei até as 13 e como sabia que o expediente da 29 C.R. encerrava-se nesse horário, decidi ir para minha casa e no dia seguinte, cedo, às 7 horas, entreguei a resposta ao Major que em seguida falou: “seu caso está resolvido. Você vai servir aqui na 29 C.R.”. A alegria tomou conta de mim.

Fiquei na Secção de Protocolo, junto com Hélio Raposo da Câmara. Na turma que serviu na mesma época estava Eurípedes Ferreira Lins, Bartolomeu Vasconcelos da Silva Dias, Mesquita, José Ribamar Siqueira, Falcão, um funcionário das Lojas “A Pernambucana” e Nelson Ribeiro, um funcionário da Prefeitura, conhecido como Nelson Cachimbinho.

O CASTIGO

clip_image004Um dia, ainda recruta com poucos dias de Exército e sem ainda ter recebido o fardamento, o Tenente Waldir Martins (foto ao lado), tesoureiro da 29 C.R. oficial ligado ao Olímpico Clube e que residia na Rua Coronel Salgado (Aparecida) e também árbitro de futebol, no final do expediente me chamou e em tom autoritário, como era seu modo, falou: “quero que você, amanhã, sábado, vá ao Parque Amazonense e fale com o zelador para colocar as redes nas traves que tem jogo e eu vou apitar”.

Simplesmente falei que estaria ocupado e não poderia ir. Foi o meu azar. Levei o maior carão do mundo com ordem de me perfilar e ficar calado.

Na segunda-feira seguinte estava rebaixado de Protocolista para Faxineiro e distribuidor de cafezinho para todos os que ali prestavam serviço. E eu que leigo no assunto, fui socorrido algumas vezes pelo colega Bartolomeu de Vasconcelos Dias que tinha mais experiência. Depois de pronto, saia pelo salão principal, com uma bandeja distribuindo o cafezinho para todos.

OUTRO CASTIGO

Fui severamente castigado por esse Tenente. Na época dos Bois-Bumbás, existia em Manaus o Corre-Campo, Mina de Ouro e o Coringa que visitavam bairros ou cumpriam contratos de residentes. Havia muita briga entre eles e por isso a turma do Coringa, que era da Bandeira Branca (Aparecida), visando uma garantia, convidou o Tenente Waldir para seu Presidente de Honra. O Boi Coringa (o único que fazia xixi) todo ele idealizado pelo Lauro Chibé que morava no bairro e que também foi jogador de futebol defendendo a União Esportiva Portuguesa, na década de 30.

Na época eu morava na Rua Xavier de Mendonça e o homem deu-me outro castigo:

“A partir de amanhã, você vai tomar conta o do curral do Boi Coringa, para evitar que a molecagem perturbe os ensaios. Esteja lá às 19 horas e só saia quando terminar o ensaio”.

Tive que cumprir a ordem arbitraria, considerando que tudo estava fora do horário de expediente. Era ainda obrigado a ir fardado, pois na época qualquer soldado encontrado a qualquer hora, dia ou noite sem farda, era punição certa.

Revoltado com tanta humilhação, uma vez ele mandou-me ir ao cais do porto apanhar uns quatro litros de leite em um motor que vinha do Careiro e levar (nos braços) para a sua residência.

De outra vez entregou-me um monte de envelope para distribuir aos seus amigos em vários pontos da cidade, inclusive no Palácio Rio Negro, comunicando o nascimento de sua filha. Todo percurso a pé.

O tempo passou e um dia ele, em tom ríspido, deu-me uma receita médica e falou:

vá comprar esse remédio e leve à minha casa, na Avenida Joaquim Nabuco em frente da Beneficente Portuguesa”.

Sempre a pé, lá fui eu de farmácia em farmácia: Osvaldo Cruz, Glória, Pasteur, Lopes, Costa, Nunes, Barreira, Moderna, Normal, Studart, Lemos, Do Povo e Drogaria Universal.

REMÉDIO MILAGROSO

O remédio receitado estava em falta e como eu trabalhava no ramo, (Drogaria Rosas) lembrei-me de recorrer ao representante do medicamento tentando encontrar uma solução. O representante era a firma J.R. Siqueira, instalada nos altos da Drogaria Universal.

Depois de explicar o problema, o Siqueira arranjou-me três amostras grátis do produto em falta. Imediatamente me encaminhei à casa do Tenente, entreguei as amostras e expliquei à sua esposa o que ocorreu.

De volta a CR. o Tenente me recebeu de modo diferente, com tom de agradecimento pelo que fiz. A sua esposa, por telefone, já lhe havia explicado a minha atitude. A partir desse dia, outros soldados foram convocados para me auxiliar no curral de ensaio do Boi Coringa e eu era o chefe deles.

No dia 15 de dezembro de 1947, eu e o Eurípedes Ferreira Lins, fomos os primeiros a dar baixa. Os demais ainda ficaram por mais um mês.

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2 comments
  • Bpontes

    Muito interessante o relato. Parabéns pela qualidade do blog.

    23 de fevereiro de 2012 17:50 || Responder

  • rildo heros

    poxa seu zamith que bacana, o senhor ter convivido e ter tido passado por estas situações, que a vida nos prega. O que achel legal é porque eu pesquiso sobreo o oficial Valdir Martins que também era desportista e lutador, ele foi aluno do lutador Satake, juntamente com outro oficial do exercito o sargento Antonio Costa Gadelha. O senhor conheceu tambem o sargento gadelha.

    7 de março de 2012 17:59 || Responder

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