10 de outubro de 2012

As treze casas da minha rua

Matéria publicada no jornal A CRITICA, de 18/03/1990.

Passou "O Dia do Vizinho", uma data que antigamente tinha grande significado. Era o dia da confraternização, dos abraços, comemorações, com muito Guaraná Andrade, fazendo-se o "tim-tim" com o copo. Comia-se muito bolo, sempre oferecido pelos mais antigos, enfim, um tempo que já vai longe, numa cidade que cresceu desordenadamente, aonde quase ninguém mais se conhece, predominando a violência, tudo muito diferente, talvez por culpa do crescimento, do progresso, quem sabe?

Eu passei a minha adolescência ano bairro de Aparecida, quando ainda era conhecido como Bairro dos Tócos, muito famoso nos idos de 30, local de valentes, não perversos, que exigiam "permanente" dos jovens que vinham de outros lugares para namorar as garotas da Rua Xavier de Mendonça, Bandeira Branca ou de suas pequenas vielas mas, principalmente da primeira artéria, reduto da família Paixão, muito respeitada no bairro.

Lembro-me dos vizinhos, até a década de 50, da Rua Xavier de Mendonça, do pessoal que morava no conhecido grupo das “Treze Casas”, todas iguais, construídas de taipa (barro com madeira), lado esquerdo de que tem acesso a essa artéria.a partir da  Rua Alexandre Amorim. O número de casas foi reduzido, já que duas foram demolidas e, portanto, restam apenas onze.

A CHEGADA

Quando lá cheguei, em 1938, fui morar na casa número 220, com minha mãe viúva há três anos com seis filhos menores, quatro mulheres e dois homens. Os moradores da primeira casa eram parentes da família do Augusto Montenegro, um político do município de Urucurituba, deputado estadual em várias legislaturas pelo PSD. Era uma das poucas casas que possuía rádio. Lá e na casa do velho Edson Bastos, antigo funcionário da Alfândega que morava do outro lado da rua, onde residiu o Estevam Santos Filho.

FREGUÊS

Eu era “freguês” de rádio das duas casas por ocasião das transmissões da Copa Roca de 1939, disputada no Brasil contra a seleção da Argentina. O time brasileiro ainda com a maioria dos craques que haviam participado da Copa do Mundo, de 1938, na França, como Batatais, Domingos D’Aguia, Machado, Brandão, Luizinho, Romeu, Leônidas da Silva, Tim, Hércules, Zezé Procópio, Perácio, além de novos convocados como o goleiro Tadeu, que jogava pelo América, Adilson, ponteiro revelado pelo Madureira, Carreiro, do Fluminense, Florindo, do futebol gaúcho, Bioró, também do Fluminense e Médio, irmão de Domingos D’Aguia e que atuava no Flamengo.

Acompanhei com muita atenção os dois jogos da série. No primeiro saí da casa dos Montenegro completamente decepcionado. O Brasil perdeu por 5×1 em pleno estádio de São Januário. Sete dias depois, no mesmo local, o Brasil recuperava-se vencendo a Argentina por 3×2, gols de Adilson, Leônidas e Perácio. Mas, um jogador da Argentina ficou gravado por muito tempo na minha memória. Os locutores brasileiros falavam muito das qualidades de Massantônio, um grande goleador do time adversário.

Gravei bem o time vencedor desse jogo: Tadeu, Domingos e Florindo; Zezé Procópio, Brandão e Afonsinho; Adilson, Romeu, Leônidas, (foto ao lado) Perácio e Carreiro.

Volto, porém, após esse relato em que não podia faltar o futebol, a falar dos moradores das “Treze Casas da Minha Rua”, relembrando velhos amigos.

OS ‘PAQUERAS’

Lembro-me dos jovens de outras áreas que frequentavam a Rua Xavier de Mendonça, em busca de divertimentos e de “paqueras”, dentre eles, Adriano Rabelo, Benoca, Pará, Floriano, Clóvis Carneiro, Nunes de Melo, os pianistas Helvécio Magalhães e Spener e o violinista Alexandre.

Aos sábados à tarde e à noite, eram organizadas festinhas simples ao som do piano e violino, nas casas do Vale e Brito ou do Comandante Fortunato. Desses encontros saíram alguns casamentos, firmes por muito tempo.

 

1ª Casa

Na esquina da Rua Xavier de Mendonça com a Rua Alexandre Amorim, onde foi a residência dos Padres Redentoristas, existia um vasto terreno murado, com uma pequena casa de madeira no centro. Ali morava um militar aposentado, José Lopes. O terreno era carregado de mangueiras e outras frutas. A garotada pedia os frutos caídos na área, mas o "seu" Lopes, um homem carrancudo, negava-se a satisfazer a petizada. E, coitado daquele que se atrevesse a atirar pedras nas mangueiras, mesmo nos galhos que davam para fora do terreno. Era chumbo certo, pois o velho militar sempre carregava uma velha espingarda para amedrontar os garotos.
 

2ª Casa

Voltando às treze casas, a segunda, quando lá cheguei morava o Raimundo Castelo Branco, casado com dona Cecília Anezio, que tinha os filhos, Maria Nazaré, Mário e Hélio. Maria de Nazaré namorava, contra a vontade dos pais, o conhecido Alfredinho Podéla, com quem se casou e tiveram longos anos unidos. Depois, nessa mesma casa passou a morar a dona Lica, casada com o escrivão da antiga Snapp, Miguel dos Santos Ferreira, pai da Nide, uma garota afável e muito  benquista na vizinhança.

3ª Casa

Na terceira casa moravam duas idosas, Dona Ana e Dona Minervina, uma delas avó do poeta Luis Bacelar que também morava lá e tinha pouca intimidade com a garotada da Rua, pois era muito dedicado as poesias. No quintal dessa casa existia um pé de Sapoti, uma fruta apetitosa, muito rara e que só alguns vizinhos tinham o privilégio de saboreá-las.

4ª Casa

Na quarta casa que ainda mantém a mesma estrutura, residia a família Vale e Brito do. Sr. Fernando, um homem alto e forte, funcionário da Alfândega de Manaus, casado com Dona Petronila. Seus filhos eram Maria, Georgina, Graciema e Ulisses educados com muito cuidado. Maria casou-se com o  desembargador (hoje aposentado) Paulo dos Anjos Feitosa e era boa pianista; Georgina funcionária federal aposentada e era de uma dedicação a toda prova com as vizinhas Dona Ana e Dona Minervina. Cuidava com muito carinho das duas as quais a considerava como filha; Graciema, que também tocava piano, casou-se com o pintor Moacir Andrade e Ulisses, depois de completar o ginásio foi para fora do Estado e formou-se em medicina. Ficou no Rio de Janeiro e lá constituiu família. Havia ainda um outro jovem que fazia parte da família e com o qual mantive maior relação de amizade. Era o Fernandinho, que tinha o apelido de Babilônia. Ele tocava violino ainda como aprendiz e como eu também estava começando a arranhar esse instrumento, andávamos sempre juntos. Pouco tempo depois ele alistou-se no Exército e foi embora de Manaus. Nunca mais o vi.

5ª Casa

Na quinta casa morava a Sr. Boanerges, chefe da família do saudoso desembargador Cândido Honório (Candinho) que tinha outros irmãos homens, o Juca que cedo foi para o Rio de Janeiro estudar medicina; o Fausto (Tatá), meu companheiro das matinês do Cine Avenida ou do Paroquial, de São Raimundo, sem perder um capítulo do seriado " A Flexa Sagrada"; o Jessé, que se formou em direito além do Joãozinho, um neguinho das canelas finas e que jogava muito bem o futebol no campinho ao lado do Grupo "Cônego Azevedo" e as jovens Maria José, Nini, que trabalhou no Banco Ultramarino, Emerentina e Beatriz.

Depois da família Boanerges, na mesma casa morou o Dr. Mendonça Júnior, na época estudante de direito de nossa Faculdade e ainda a família de D. Helena Cidade, todos por pouco tempo. Mais tarde a mesma residência (206) foi ocupada por muito tempo pelos familiares do então deputado estadual Augusto Pessoa Montenegro, pai do Leopoldo Macambira, Maria Augusta, que passou a residir em Niterói logo que se casou com o Floriano; Fernando que era seminarista: Dóris, que trabalhou na Biblioteca Pública; Gracy, casada com o Vasconcelos, do Banco do Brasil, o Sérgio e o mais novo da tropa, o Paulo, mais conhecido pela alcunha de Porquinho. Era franzino e o mais encrenqueiro, não levava desaforo pra casa e por isso vivia envolvido em constantes brigas com garotos de sua idade. Todos eram chamados de Macaxeira por terem a pele clara.

6ª Casa

  Na casa seguinte, nº 220, já modificada (foto), que antes chegou a ser residência do Coronel Márcio Menezes, algumas vezes candidato a cargos políticos, morava eu, com minha mãe e mais cinco irmãos menores. Minha mãe, Alexandrina, morreu em 1942 e minha avó, Isabel, veio de Belém para tomar conta da casa e dos netos: Eunice, eu, Irene, Nair, Lígia e o José (Zeca, também conhecido na rua pelo apelido de Ico, aposentado pelo Jornal do Comércio como gráfico e que por muito tempo esteve em atividade no Colégio D.Bosco, falecido em novembro de 2000.

7ª casa

Na sétima casa residia o Sr. Arthur Freitas, um antigo funcionário dos Correios e Telégrafos, casado com D. Coralia, (falecida em 1998), uma senhora muito cuidadosa com os filhos: António, que passou a residir no Rio desde jovem, Alayde, Arlete, Agostinho, Alcimar, Ariosto, Arimar e parece mais uns dois que não recordo os nomes. O velho Arthur mudou-se de lá e foi morar na Lauro Cavalcante, mas a casa foi ocupada por outra moradora do bairro, a jovem Alair Saraiva que se casara com o comerciante Celso, um desportista que foi remador do Grêmio Náutico Portugal e que muito jovem faleceu. Logo depois a mesma casa foi adquirida por um comerciante do interior, Sr. Felinto, que trouxe a família da localidade de Berurí e lá morou muito tempo.

8ª Casa

A oitava casa era ocupada na década de 30 pelo Comandante Geraldo, pai de uma jovem muito estimada na rua, conhecida como Paquita e que depois passou a residir na rua Ramos Ferreira, quando se casou com enfermeiro da Santa Casa, Manoel Gavião, já falecido. Depois a moradora dessa casa foi a D. Marina Cruz, viúva, e que trabalhava, salvo engano, no Juizado de Menores. Era mãe de vários filhos menores, dentre eles o hoje. Dr. Benedito Lyra, o Renato o mais velho, conhecido por Batelão e a Inês, além do Zéca, (já falecido) que dentro da molecagem tinha a alcunha de "Malfeito". Essa casa, na década de 50, foi adquirida pelo Jaime, um antigo funcionário da firma J.Soares que ainda hoje (1999) lá reside com a família.

9ª Casa

Na casa nº 204, morava a D. Elvira Saraiva, já viúva em 1938. Era mãe de três moças muito benquistas na rua, Zuleide, já falecida, a bela Alair e Zuila, que trabalhavam na recém-criada loja 3.900 que depois "subiu" para 4.400 e depois Lobrás. Quando inaugurada, funcionava na Sete de Setembro esquina com a Praça 15 de Novembro, quase frontal à Casa 22 Paulista. Depois, nesse mesmo prédio passou a funcionar a Loja Rianil.

10ª Casa

Na casa nº 198, conheci ainda garoto o Jauapery Costa e seus irmãos, Coracy, Jurandir, o mais velho, Lazinha, que trabalhava no Inps, Cecy, Joaquim, que cedo foi embora de Manaus. Era a família Bacurau, apelido não muito a gosto deles. O Jauapery foi um exímio jogador de volibol, era o melhor passador de Manaus. Jogou pelo Eldorado e pelo Rio Negro. Era funcionário da Fazenda Estadual a ainda hoje (1999 )familiares seus residem na mesma casa.

11ª Casa

Na 192, residia um velho Comandante de navios, Fortunato,que tinha quatro bonitas filhas, Siní, Nilce, Cleonice e Mirze, e um filho homem, o Ribamar, ginasiano que não era muito relacionado com a turma da rua. Depois essa casa foi alugada para a família do Sr. Farias, um velho funcionário da Prefeitura Municipal e pai de um jovem que tinha o apelido de "Chico Miolo", uma cara baixinho, com mania de ser cantor de rádio e meio doidão, por ser portador de uma doença de nome “Mastoidite”, uma inflamação onde está implantado o pavilhão da orelha. Quando estava atacado gostava de arranjar encrenca em qualquer lugar. Operado na Beneficente Portuguesa, ficou muito mais calmo.

12ª Casa

Na casa seguinte residia uma família de João Rocha da Silva vindos do município de Coari. D. Maria Rocha tinha os filhos homens Bento, Mário e Honório, ainda muito jovem, além das moças Alba e Marina, que mais tarde tornaram-se freiras. O Bento fez concurso para o Banco do Brasil e, aposentado passou a viver Rio de Janeiro. Morou nessa casa de 1934 até os idos de 60. Eram alheios aos movimentos ou brincadeiras da rapaziada da época, talvez pela dedicação aos estudos.

13ª Casa

Finalmente, na casa 182, morava o Sr. Palmeiras, (Francisco Palmeiras Bastos), um cidadão já idoso, viúvo, que fazia jogo do bicho. Tinha uma filha, D. Joanita e esta uma filha, chamada Ritinha, moça bonita de feições delicada, meiga. Na mesma casa moravam, Lourdinha filha adotiva, que mais tarde casou com Pedro Buretama, e as netas do Sr. Palmeiras, Suzette, Mara, casada com o João Eletricista e Lindalva que passou a viver no Rio de Janeiro, como também Joanita, viúva do irmão do Dr. Carlos Melo e sua filha Ritinha. A casa foi demolida e construída uma de dois pisos pelo Híspere Ramos, o Peroba, antigo morador do lado impar da mesma rua, um ajudante de despachante que jogou futebol pelo Fast, Eldorado e por quase todos os times do bairro. Lá ainda residem seus familiares

Aqui termina o grupo das Treze Casas, hoje apenas onze, da Rua Xavier de Mendonça, que começava na escadaria do Igarapé de São Vicente, para terminar na Rua  Comendador Alexandre Amorim passando pelo início da Rua Gustavo Sampaio e do Beco da Carolina das Neves, uma viela estreitinha que dá acesso à Praça da Bandeira Branca, oficialmente Praça Comandante Ventura.

Só resta a saudade dos bons tempos, da harmonia entre os moradores da minha inesquecível Aparecida, da Rua Xavier de Mendonça. Dos times de futebol da área, como Satma, dos irmãos Paixão, do Oberon cuja sede funcionava na casa do Toinho Babuginha irmão do Caithô e do Pate-Papo, em frente ao Grupo Conego Azevedo.

Quem foi Xavier de Mendonça

Francisco Xavier de Mendonça Furtado, nasceu em Portugal em 1700. Faleceu em 1769. Em 1758 veio para o Amazonas lançar os fundamentos da Capitania de São José do Rio Negro.

Governador da Capitania do Grão Pará e irmão do Marquês de Pombal, primeiro Ministro daquele soberano, ficara encarregado de traçar os limites da nova Capital. Depois de pessoalmente erigir em vila, com o nome de Barcelos, a aldeia de Mariuá.

Foi, a rigor, a primeira personalidade que governou o futuro Estado do Amazonas. Traçou os limites que garantem ao Estado do Amazonas a posse indiscutível da parte do território disputado pelo Pará.

A rua Xavier de Mendonça inicia-se no Igarapé de São Vicente e termina na Rua Comendador Alexandre Amorim.

Imagem do mapa

Filed under:Eu sou o Baú VelhoQuem Foi Sua Rua? || Tagged under:
Author:

7 comments
  • Tio gostei muito do artigo das 13 casas gostaria que um dia contasse a história da minha avó materna dona Elisa Bessa Freire que se dou muito para a comunidade do bairro de Aparecida principalmente para os doente, catequista e filha fervorosa de N.S. da Conceição.

    18 de outubro de 2012 10:25 || Responder

  • paulo afonso marreiros

    nasci na xavier de mendonça e morava com meus avós em um casarão que tinha em frente uma escadaria, onde os barcos desembarcavam muitas tartarugas, de la dava para ver o GEF (um quartel) fazendo manobras militares no rio e nas praias, meu finado avô chamava-se Antonio Silvestre Marreiros, e tinha também um tio que era pracinha e se chamava Manduca, nasci em 1961, ainda me lembro da Carmem doida e também de um senhor que tomava conta da pracinha perto da escola onde eu estudava(Conego Azevedo).

    18 de outubro de 2012 16:36 || Responder

  • Ana Braga

    Muito interessante a história das 13 casas. Este ano, por ocasião da enchente, estive na escadaria citada, mas nem de longe sabia que o nome daquele igarapé (que na enchente mais parece um braço do Rio Negro) é Igarapé de Saõ Vicente! Já vou acrescentar a informação ao meu arquivo de fotografias. Valeu!

    30 de novembro de 2012 21:59 || Responder

  • Leonardo Montenegro

    Adorei o artigo. Augusto Montenegro era irmão do meu finado avô Bernardo Montenegro. Moramos hoje em Goiânia. Zamith, gostaria de mais informações, caso tenha. Obrigado.

    5 de março de 2013 11:21 || Responder

  • Doris Montenegro Pinheiro

    Sou filha do deputado Augusto Montenegro residí e casei na casa 206 grandes recordações me veio a memoria foi como uma volta ao passado agradeço do fundo do coração ao sr. Zamith, pode mandar mais informações.Só tenho uma observação a fazer pois faltou minha irmã caçula Silvia Maria que hoje vive em Santos e eu em Recife.Obrigado

    5 de março de 2013 19:19 || Responder

  • Excelente matéria assim como todo o blog. Estou há mais de duas horas navegando e acho que vou precisar de uns bons meses para ver tudo. Obrigado aos idealizadores por essa aula sem fim.

    Atenciosamente

    Emmanoel dos Santos Soares Filho

    25 de julho de 2013 18:22 || Responder

  • Mariano Gomes de Seixas

    Somente hoje(19.11.2014) tive a oportunidade de tomar conhecimento deste excelente trabalho. Pena que Carlos Zamith já não esteja entre nós,

    19 de novembro de 2014 21:20 || Responder

Leave a comment

CALENDÁRIO

janeiro 2026
S T Q Q S S D
« set    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

ARQUIVOS DO BAÚ