7 de junho de 2013

Quando os mortos aparecem…

O sol nasce e morre todos os dias, num ciclo infinito. Ao surgir nas primeiras horas da manhã, é sempre suave em suas cores e delicado em sua presença, pois ainda está fraco; mas a medida que o dia avança, se torna mais quente e forte, e, no fim do dia, volta a ser dócil, dizendo pra nós que no amanhã virá como partiu. A lei do Tempo é a repetição. O tempo todo é uma vida inteira. Mais de quatro vintenas de anos podem não ser mais do que abrir e um fechar de olhos em relação à eternidade: para meu pai que semeou 87 anos é muito mais do que um piscar de olhos. Sua vida é o alimento para todos aqueles que colhem à sua volta. Sob o sol está a estrada da vida, o sol sobre a estrada é o sol… é o sol… nascemos no caminho da morte e  não há como escapar.

Todos os dias, meu pai Carlos Zamith, recebe visitas, todas sempre bem vindas, são sorrisos, são lembranças, são despedidas que deixam um coração e uma lágrima. Quando a velhice desce sobre o corpo, então é chegada a hora meus amigos, de emprestarmos a ela ouvidos e olhos, dar-lhe mãos e pés e amparar com o amor as forças que já se perderam. Muito embora, com o corpo debilitado, paralisado pela doença, meu pai brilha na Luz e lucidez, seu espírito repousa na esperança da Paz e seu coração extravasa palavras de gratidão e Amor.

E hoje, quando cheguei em seu quarto, lugar tão doce e de fonte tão bela, ele me chamou calmamente e disse bem perto, no meu ouvido:

– Meu pai veio ontem me visitar!

Era José Alves de Oliveira, meu avô paterno que eu não conheci, faleceu por volta de 1939, há mais de 70 anos quando meu pai ainda era um menino. Aquele encontro espiritual me surpreendeu. Contou-me detalhes daquela visita, da sua vestimenta, do semblante. A aparição do meu avô pediu para que ele tivesse paciência, depois acenou e desapareceu.

O homem vive enfaixado. O tempo nos enfaixa. O espaço nos enfaixa. A carne nos enfaixa e do mesmo modo, são faixas todos os nossos sentidos. Mas quando o espírito está próximo a se desprender da matéria, das faixas e ataduras, e nos tornamos suave, dócil como o sol no poente, a consciência flui na imensidão da realidade e a palavra pela qual ela vê e se expressa, quase nunca é compreendida por nossos pesados véus porque estamos cegos olhando o céu. É preciso se preparar para o que há de vir, abrir os olhos da consciência e perceber o que está próximo.

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5 comments
  • João Carlos

    Excelente texto, profundo e de auto reflexão para todos nós a cerca da vida e do tempo que nos resta. Desejo ao Sr. Carlos Zamith dentro da serenidade como diz o texto, que faça a passagem dentro do maior conforto espiritual e que os anjos do céu lhe recebam no colo. Nós aqui amigos e leitores desse blog maravilhoso sentiremos saudade.

    9 de junho de 2013 11:48 || Responder

  • Vlaudette Maria

    Que bom saber notícias suas Sr. Zamith, mesmo que não sejam boas, mas é um alento para nós sabermos que o senhor está cercado pelos seus familiares e amigos. se soubesse onde o sr mora irira tambmem lhe fazer uma visita. estamos orando pelo sr. acredite na fé e na esperança.

    9 de junho de 2013 11:53 || Responder

  • Ivens Lima

    Prezado Amigo Carlito: Diariamente acompanho pela internet, a tua luta. Lembro o nosso tempo, quando faziamos parte do cast da Radio Riomar.Trabalhavamos juntos no mesmo horario, isso nos anos de 1954. Eu locutor, tu, meu amigo, como controlista de som. Diariamente, la no velho predio do IAPETEC, ao lado da Prefeitura, na Manaus que aparentemente, ja nao existe. Muitas lembrancas, muitas saudades. Quanta saude, quanta garra, quantos sonhos. Fizemos o que nos foi possivel fazer, num campo novo. Gracas, ao nosso esforco, teu, meu e de outros amigos que ja se foram, para dar a Manaus, a Cidade Risonha, uma emissora de radio moderna, vibrante, jovem e muito avancada para o seu tempo. Quantas lembrancas, amigo Carlito; quantos causos, historias, nomes, musicas, programas.Os famosos programas humoristicos, que tu, tinhas a obrigacao de ouvir, para saber se haviam condicoes, dos mesmos serem apresentados. Depois o esporte, eu com a mania do cinema = Cinemascope do Ar, e tu, a lutar pelo futebol da terrinha. E os teus sub=comandados – Joao Lins, Flaviano Limongi, Luiz Vercosa, Luiz Saraiva. E haja noticias, sem barrigas, a escolha das melhores vozes. E tu, apezar da idade, eras bem mais velho, sempre com paciencia e sem perder a fleugma, orientandoi a turma que dava vida, a radio do seu Charles Hamu, do Erasmo Linhares e posteriomente do Padre Tiago. Foram momentos inesqueciveis. Hoje, ja cansados pelo tempo decorrido, vamos nos, seguindo a trilha que Deus/Jesus nos da. Ate quando, nao sei amigo. Eles e quem determinam. E nos devemos cumprir. Aqui, de longe, acompanho tua luta. Diariamente, repito, leio a coluna de teu filho Carlyle. Nao voltei a telefonar, para nao importunar o teu socego e dos teus familiares que se esforcam para te dar o melhor nestas horas. Um abraco amigo, Carlos Zamith de Oliveira, o nosso tao querido Carlito portugues. como eras chamado nos corredores da velha Radio Rio Mar. Um abraco deste teu amigo distante, o Ivens Lima.

    9 de junho de 2013 21:17 || Responder

  • MARIA DAS GRAÇAS DIAS ARAUJO

    Obrigada querido ZAMITH, por esse trabalho tão lindo que vocÊ compartilhou com todos nós.
    Que Deus o abencoe e a toda a sua casa.
    A paz de nosso amado JESUS o envolva.

    14 de junho de 2013 15:31 || Responder

  • Sidarta

    Meus sentimentos à família e à sociedade desportiva Amazonense. Perdemos um gigante que representava o futebol local muito amor e entusiasmo!

    27 de julho de 2013 18:16 || Responder

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