29 de julho de 2013

Vou Lembrar de Você, Professor

Comecei a frequentar os estádios Vivaldo Lima, o nosso Vivaldão, e o Ismael Benígno, a Colina, desde os primeiros anos da minha infância. A paixão pelo Nacional me foi passada pelo meu pai. Não faltávamos um jogo sequer. E chegávamos cedo, dava até pra assistir boa parte da preliminar.

Certa vez, não lembro quando, mas ainda durante minha infância, recordo ter perguntado ao meu pai quem eram aqueles homens que estavam em todos os jogos e chegavam antes da gente. Ele então me explicou: “aquele ali sentado mais ao lado direito das cabines de rádio é o seu Caetano, pai do Arnaldo Santos, Narrador. Olha o Arnaldo ali, na cabine logo acima”. Então, eu retruquei: como pode ele ser o pai do Arnaldo Santos se ele é nacionalino e o Arnaldo, rionegrino?. Meu pai riu e disse: “mas o filho não é obrigado a ter o mesmo time do pai”. E seguiu explicando “Aqueles outros dois, sentados do lado esquerdo, são o Flaviano Limongi, primeiro Presidente da FAF, e o outro é o Carlos Zamith, da coluna Baú Velho”.

Pois bem, o tempo passou, tornei-me leitor assíduo do Baú Velho, no jornal A Crítica, todos os domingos. Lia também a Coluna Bazar do Flaviano Limongi, mas confesso: gostava mesmo era do Baú. Ficava indignado quando pegava o jornal e percebia que a foto e o assunto principal da coluna não eram o Nacional. Pensava: pra quê falar desses outros times. Agora, iria ter de esperar até o próximo domingo!

Lendo o Baú conheci uma estranha sensação: ter saudade de algo que não vivi. Algumas vezes, cheguei a pegar minha bicicleta – uma Barraforte azul, da cor do Naça, é claro – e pedalar do Boulevard, onde nasci e cresci, até o portão do velho Parque Amazonense, primeiro estádio de Manaus, só pra ficar olhando lá de cima e imaginando aqueles jogos incríveis, por exemplo: a final do primeiro Campeonato Amazonense Profissional de 1964, conquistado pelo Nacional em cima do São Raimundo.

Gostava também de ler sobre os títulos do Nacional conquistados durante a minha infância na década de 70, os estádios lotados, enfim, detalhes e histórias não observados por mim na época. Destes, destaco o tetracampeonato de 1979, 40.193 pagantes, gol de Raul, na prorrogação. Fui mascote nesse jogo e entrei em campo junto com o Corrêa, meio – campista.

Vieram os livros do Baú Velho. A partir deles, eu e muita gente tomamos conhecimento da dimensão deste trabalho. Informações sobre o primeiro Rio-Nal, a origem dessa expressão, seu criador, os artilheiros, os campeões desde o primeiro campeonato amazonense, as escalações, os gols mais rápidos, as histórias, a Fada, a criação da FAF, o Vivaldão, a Colina, o Parque, etc.

E mais, através dessa obra pude descobrir o espírito inquieto e revolucionário de um homem que quando chegou pra trabalhar na Rádio Rio-Mar, em 1954, não havia cobertura sobre o futebol local. Passavam resenha do Rio de Janeiro. Lutou até conseguir colocar o futebol local no ar. Não se acomodou, fazendo o que era mais fácil. Sua ideia foi seguida pelas Rádios concorrentes da época, Difusora e Baré.

Depois disso, o futebol ganhou impulso, veio a profissionalização e os anos de ouro, os estádios lotados, a criação da FAF. Precisamos urgentemente de novos Carlos Zamiths nas redações do jornais, rádios e televisões locais. O mínimo que os donos de veículos de comunicação deveriam determinar aos noveis jornalistas esportivos era que desligassem um pouco os aparelhos de televisão das redações e cuidassem de ler o Baú Velho.

Difícil aparecer alguém com esse espírito nas redações esportivas. Estão muito ocupados pensando em como irão compilar as matérias da imprensa sulista. Mas, é nos momentos de crise que costumam emergir os talentos.

Aos 87 anos o Jornalista Carlos Zamith partiu. Ficarão sua obra e o seu exemplo. Vou lembrar de você, Professor.

FONTE: Luis Cláudio Chaves

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1 comment
  • Daniel Sales

    Caro Luiz, entendo perfeitamente seus sentimentos, dos quais também partilho. Na década de 1970, ainda criança, já ia aos estádios de Manaus assistir quasquer jogos e não tão somente os Rio-Nais, tão famosos à época. Nessa decisão de 1979, que você mencionou, me localizai atrás do gol, na arquibancada, em frente ao antigo relógio (placar) da BETA.

    Quando os tratores derrubaram as velhas arquibancadas do Parque Amazonense, pude ler nos jornais locais o fato e lembro-me quando um dos condutores de um dos tratores se emocionou e foi às lágrimas, pois não queria fazer aquilo, mas dependia de sua profissão…

    Algum tempo depois, lá por 1978, fui da Praça 14 de janeiro ao Parque, a pé, e, chegando lá, parei a contemplar aquele local… Desde lá de cima, olhava para baixo, na direção da Rua Libertador, no Beco do Macedo, e ficava a imaginar as jogadas dos craques do passado baré….

    Sai de lá meio leve e a “viagem” de volta para casa parece que foi um voo, um flutuar pelas ruas. Esta minha saída não foi dita a ninguém da família, já que eu era apenas um garoto, foi à guiza de estudos, fazer trabalhos em equipe e aquela coisa…

    Pois bem, a Coluna do Zamith, eu a lia no Jornal A Crítica, se não me engano, já na década de 1980 e tornar-me-ia um assíduo leitor, assim como você e vários dos que hoje ainda vão aos jogos locais. Quando o Zamith lançou em forma de livro suas histórias (e pasmem…Ali naquela obra não há nem mesmo 10% do que ele havia colecionado ao longo dos anos…) adquiri a obra na Livraria Valer e saí a divulgar pelo Brasil aquela maravilha na primeira edição, de capa verde. mandei livros para desde o Rio Grande do Sul e Paraná, São Paulo, Minas Gerais e tantos outros leitores que o pediam…

    Aos poucos fui conhecendo mais pessoalmente o Zamith – por primeiro, no Vivaldão, aonde ele sempre estava acompanhado do seu rádio de pilha e de Flaviano Limongi, seu amigo de tempos imemoriais. Aos poucos, ia a sua casa, na Chapada e lá conversávamos sempre sobre o futebol local e ele, sempre muito atencioso, tirava do “fundo do baú”, relíquias que acho eu, nunca serão divulgadas – não que ele quisesse – pois, para quem não sabe, o primeiro livro do Zamith foi custeado por ele mesmo e sabemos das dificuldades para se lançar uma obra de boa qualidade. Zamith, que morava bem próximo de um curso de um igarapé, por várias vezes viu seu acervo gigantesco ser consumido pelas águas, sem ter ajuda dos órgãos públicos para salvar a papelada, os documentos, ou pelo menos que fizessem um trabalho sério com toda aquela relíquia do grande pesquisador…

    Esse botafoguense da ápoca de Carlyle e Garrincha era um torcedor do bicampeão do futebol amazonense de 1935 – A União Sportiva Portuguesa, Depois que o clube, no futebol, fora extinto, admirou o Olímpico. Em seu segundo livro (os campeões do Amazonas de 1964 a 2005), o cronista faz uma singela homenagem ao clube dos 5 aros com uma foto da torcida do time citado, no Velho Parque.

    Homem fino, inteligente e que não demonstrava que possuía mais de 80 anos (faleceu aos 87) para mim parecia um garoto, esperançoso, motivado e sempre disposto a pesquisar e a debater – um fôlego para pesquisas incrível. Conversava com ele com prazer, nas vezes que nos encontr-ava-mos, inclusive no antigo Vivaldo Lima.

    Sua ida nos abalou de grande maneira. Soube que suas últimas palavras foram uma ilusão ao velho amigo Limongi, que partira três meses antes.

    Obrigado Zamith. Você é um verdadeiro imortal do Futebol Amazonense, das Letras do Futebol Baré. Futebol que você tanto amou e por ele brigou. Vá com Deus, meu caro.

    29 de julho de 2013 18:57 || Responder

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