29 de julho de 2013

Carlos Zamith, o dono do Baú Velho

Por Daniel Sales

Na década de 1970, ainda criança, já ia aos estádios de Manaus assistir quaisquer jogos e não tão somente os Rio-Nais – tão famosos à época. Na decisão de 1979, entre Nacional e Rio Negro, me localizei atrás do gol, na arquibancada, em frente ao antigo relógio (placar) da Beta. Jogo para mais de 42 mil torcedores pagantes. No Vivaldão cabiam mais de 50 mil, porque não havia os assentos, que vieram “diminuir” o público – era em cima do concreto mesmo. Um pouco antes, no Torneio Início de 1976, lá eu estava com entusiasmo exacerbado. Ainda assisti a “formiga” (Rodoviária) jogar e o Olímpico. Assisti aos primeiros jogos do nascente Libermorro (1977) etc.

Pois bem, quando os tratores derrubaram as velhas arquibancadas do Parque Amazonense, pude ler nos jornais locais o fato e lembro-me de quando um dos condutores de uma das máquinas barulhentas (besourões) se emocionou e foi às lágrimas, pois não queria fazer aquilo, mas dependia de sua profissão (uma obrigação)… Relatou que tantas e tantas vezes ia ao Parque Amazonense assistir aos jogos de outrora. O velho estádio fora destruído em 1976 – teve o primeiro jogo lá em 1906.

Algum tempo depois, penso que em 1977, fui da Praça 14 de janeiro ao Parque, a pé, e, chegando lá, parei a contemplar aquele mágico local… Desde lá de cima, do portão dos “cavalos”, olhava para baixo, na direção da rua Libertador Simon Bolivar, no Beco do Macedo, e ficava a imaginar as jogadas dos craques do passado baré… Imaginava as arquibancadas sempre lotadas do pequeno estádio… Do zoar das torcidas num grito de gol peculiar dos amazonenses: “peeeeeeeeeegaaaaa.!..”  O resto da frase vocês, observadores atentos, já sabem…

Sai de lá meio leve e a “viagem” de volta para casa parece que foi um voo, um flutuar pelas ruas. A cabeça a mil, com um misto de satisfação, realização de um sonho e, mesmo, uma certa angústia. Esta minha saída não foi dita a ninguém da família, já que eu era apenas um garoto. Foi à guisa de estudos, fazer trabalhos em equipe e aquela coisa, e seria bem pertinho de casa… Havia um programa na TV local que mostrava várias cenas, sem áudio, de jogos no velho estádio. Uma pena é que ou aquele tesouro se perdeu, ou o detentor desta mídia não partilha de forma alguma com a sociedade, estes vídeos (excesso de preciosismo?). Por que não fazer que nem o Zamith, que divulgou a todos nós, suas anotações de anos e anos de pesquisas?

Pois bem, a Coluna do Zamith, denominada Baú velho, eu a lia no Jornal A Crítica, se não me engano, já na década de 1980, e tornar-me-ia um assíduo leitor (e mais tarde, um contumaz partícipe por meio de cartas, que sempre eram respondidas pelo Mestre), assim como você e vários dos que hoje ainda vão aos jogos locais. Quando o Zamith lançou em forma de livro suas histórias (e pasmem… Ali naquela obra não há nem mesmo 10% do que ele havia colecionado ao longo dos anos…), em 1999,  adquiri a obra na Livraria Valer e saí a divulgar pelo Brasil aquela maravilha na primeira edição, de capa verde. Mandei livros para vários locais, desde o Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Brasília, Ceará e a tantos outros leitores que o pediam, de várias partes do Brasil… Quando não ia à Livraria comprá-lo, ia mesmo à casa do escritor da importante obra.

Aos poucos fui conhecendo mais pessoalmente o Zamith – por primeiro, no Vivaldão, aonde ele sempre estava acompanhado do seu rádio de pilha e de Flaviano Limongi (o Patriarca do futebol amazonense), seu amigo de tempos imemoriais. Aos poucos, ia a sua casa, na Chapada, e lá conversávamos sempre sobre o futebol local e ele, sempre muito atencioso, tirava, e mostrava-me, do “fundo do baú”, relíquias que acho eu, nunca serão divulgadas – não que ele não quisesse – pois, para quem não sabe, o primeiro livro do Zamith foi custeado por ele mesmo e sabemos das dificuldades para se lançar uma obra de boa qualidade. Zamith, que morava bem próximo do curso de um igarapé, por várias vezes viu parte do seu acervo gigantesco ser consumido pelas águas, sem ter ajuda dos órgãos públicos para salvar a papelada, os documentos, ou pelo menos que fizessem um trabalho sério com toda aquela relíquia do grande pesquisador…

Esse botafoguense, da época de Carlyle e Garrincha, era também um torcedor do bicampeão do futebol amazonense de 1935, a União Sportiva Portuguesa. Era filho de um português, denominado, Zé Preto, que faleceu quando o Carlos tinha 12 anos de idade. Zamith teve que ir trabalhar desde cedo (com 12 anos mesmo) com sua mãe, no Comércio local, passando pela firma JG Araújo, uma gigante da época. Adentrou na Rádio Rio-Mar, logo quando a mesma foi fundada, depois passou pela Difusora. Em 1961 estava na mídia impressa. Anos mais tarde criou a famosa Coluna sobre a memória do futebol, Baú Velho.

Homem fino, inteligente e que não demonstrava que possuía mais de 80 anos (faleceu aos 87) para mim parecia um garoto: esperançoso, motivado e sempre disposto a pesquisar e a debater – um fôlego para pesquisas incrível. Conversava com ele com prazer, nas vezes que nos encontrávamos, inclusive no antigo Vivaldo Lima. Ele assistia aos jogos na Tribuna de honra.

Sua ida nos abalou de grande maneira. Soube que suas últimas palavras foram uma alusão ao velho amigo Limongi, o “italiano”, ou o “parente”, que partira três meses antes. Aliás, ambos nasceram no mesmo ano (1926). Zamith era um grande contador de causos, de histórias e curiosidades em geral. Gostava de citar os nomes das ruas de Manaus, suas antigas denominações. Também sobre as personalidades do passado de Manaus.

Obrigado Zamith. Você é um verdadeiro imortal do Futebol Amazonense, das Letras do Futebol Baré. Futebol que você tanto amou e por ele brigou. Vá com Deus, meu caro.

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2 comments
  • Mosani Santiago

    Sensacional! Bela homenagem, Daniel Sales.

    9 de agosto de 2013 10:17 || Responder

  • Daniel Sales

    Mosani. Tinha obrigação de escrever sobre esta personalidade que, além de amigo, era um pesquisador como poucos.

    11 de agosto de 2013 22:03 || Responder

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