6 de agosto de 2013

A entrevista gravada e perdida com Carlos Zamith

Entrevista gravada e perdida em 2010, exclusiva com saudoso jornalista autor do Baú Velho

Por André Viana

Em janeiro de 2010, quando as obras dos doze estádios que receberão os jogos da Copa do Mundo do ano que vem estavam começando, fiz uma entrevista com o jornalista e historiador Carlos Zamith.

Naquela época, eu fazia “frilas” (forma que o meio jornalístico chama os tradicionais “bicos” para aumentar o rendimento salarial) para um site esportivo do Rio de Janeiro. Minha intenção era levar um personagem renomado do jornalismo esportivo de Manaus que viu o nascimento e o fim do Vivaldão, e contou suas histórias. Não havia ninguém melhor para entrevistar do que o Zamith. 

Sempre atencioso, o autor do Baú Velho me atendeu em dois telefonemas, a entrevista era longa, mas aconteceu um imprevisto: um vírus danificou meu computador e perdi meus arquivos. Fotos, PDFs de matérias publicadas, textos, áudios de entrevista e músicas. Ou seja, tudo que achava bem guardado deixou de existir. Entre elas, a entrevista feita com Zamith.

Por se tratar de um material feito com um exímio pesquisador, zeloso com qualquer documentação, não quis ligar novamente para fazer as mesmas perguntas. O que ele iria achar de mim? No mínimo um irresponsável, que não cuida adequadamente de seu material de trabalho. Tenho certeza de que ele me concederia a mesma entrevista, com a mesma paciência, mas fiquei envergonhado de pedir. Preferi deixar de ganhar o dinheiro que havia tratado com o site para fazer o trabalho extra.

Mas a vida, assim como uma partida de futebol, reserva surpresas. Recentemente meu pai estava arrumando umas caixas e encontrou, entre outras coisas, vários pen drives. Para minha surpresa, voltei a ter alguns arquivos digitais que julgava ter perdido. Fotos dos meus filhos quando eram bebês, viagens, enfim, momentos marcantes da minha vida. E um tesouro profissional: parte da entrevista de Carlos Zamith que transcrevi.

Hoje a publico, em homenagem ao grande jornalista e historiador falecido no final de semana passado. Infelizmente, eu não encontrei o arquivo de áudio. Mas com a vida sempre nos surpreende, quem sabe um dia, não o encontre? O transtorno serviu para mostrar que se tivesse um velho baú para guardar meus documentos seria mais seguro do que um aparelho eletrônico sujeito a invasores externos.

Mas eu sou o André Viana, não o Carlos Zamith.

SEGUE A ENTREVISTA:

O SENHOR SE ENVOLVEU COM O VIVALDO LIMA COMO E QUANDO?

Eu era tesoureiro da Federação (FAF, Federação Amazonense de Futebol) na época em que o estádio foi inaugurado. Na década de 60, eu estava trabalhando no Jornal do Comércio e o Flaviano Limongi (amigo inseparável dele e presidente fundador da Federação Amazonense de Futebol), que era presidente da FAF e foi um dos grandes incentivadores da construção do estádio me convidou. Fiz esta função por dois anos. Tinha um compromisso verbal com o Limongi de sair depois do jogo da Seleção Brasileira, em 5 de maio de 1970. Eu fiz isso e ele (Limongi) ficou muito bravo comigo (risos).

Hoje, eu tenho um blog na Internet com o nome de Baú Velho, que é o nome da coluna que eu assinei por 20 anos no jornal À CRÍTICA, trazendo 62 histórias de jogadores do passado e de nosso futebol. Sempre renovo, atendo pedidos dos leitores.

Antes disto eu tive um contato com o Vivaldo Lima atuando como repórter. A ideia de construir um estádio surgiu na década de 50, com o Plínio Coelho. Mas só no governo do Artur Reis, que era “governador biônico” em 64, as obras começaram pra valer. O Artur chamou a imprensa para anunciar a construção do estádio e fui cobrir o lançamento das obras para o Jornal do Commercio. Havia apenas um imenso matagal. Eu mesmo disse que ninguém ia se deslocar até ali para assistir futebol.

JÁ QUE O SENHOR CITOU A INAUGURAÇÃO DO ESTÁDIO, O QUE O SENHOR LEMBRA DAQUELE 5 DE MAIO DE 1970?

Lembro que fui parar no Pronto Socorro (risos). Nunca tinha visto tanto dinheiro na minha frente (mais risos). Nós vendemos os ingressos antecipados. Havia um posto na Rua Joaquim Sarmento, nós passamos quatro dias vendendo os ingressos. Chegamos a arrecadar na época 400 milhões de cruzeiro, cruzado… Não me lembro. No dia do jogo, só vendemos 12 mil. A maioria estava vendido.

O Estádio não estava totalmente pronto. O lado que dava pra Avenida Constantino Nery estava só no tapume. As arquibancadas e geral eram todas no cimento. Não tinha assento, nem cadeira…

Nós fomos para o estádio cedo, pois a seleção exigiu o pagamento antecipado. Eles pediram 150 milhões. E isso foi pago antes do jogo. Já tínhamos 400 milhões apurados. Mas nós tivemos um problema muito ruim na hora. Havia muito policiamento fiscalizando, só que na hora que a Seleção Brasileira entrou em campo, e começaram a tocar o hino Nacional, os soldados tiveram que se perfilar. Aí o povo aproveitou e invadiu. Mas de três mil pessoas entraram. Quebraram os tapumes, geraram um tumulto muito grande.

O detalhe é que a Seleção se utilizou de quatro jogadores do Amazonas. A Seleção pediu que a Federação (FAF) indicasse jogadores para compor o elenco. Essa turma integrou o Time B do Brasil. Foi o Catita (Rio Negro), Evandro (Olímpico), Pretinho (Nacional) e Pompeu (Fast). Eles podem dizer que vestiram a camisa da Seleção. O Brasil saiu daqui, fez alguns amistosos no Rio, antes de ir para o México ser tricampeão mundial.

O primeiro jogo entre as Seleções B do Brasil e a B do Amazonas foi 4×1 pro Brasil. O placar se repetiu entre os Times A. Não tinha comparação. O Time A do Brasil tinha Pelé, Tostão, Paulo César, Rivelino, Jairzinho, Brito, Carlos Alberto… era um timaço. Outro detalhe é que neste jogo, entre Brasil e Amazonas A, o Rivelino bateu uma falta de fora da área, e ele tinha um chute muito potente, a bola bateu na cabeça do zagueiro Maravilha e ele desabou na mesma hora. Maravilha precisou sair às pressas, de maca, para o hospital, mas felizmente não houve nada com ele. O próprio Rivelino ficou preocupado, queria saber o que havia acontecido.

E O QUE O SENHOR TEM A DIZER SOBRE A DEMOLIÇÃO E O DESAPARECIMENTO DO VIVALDÃO?

Não vou dizer nada. Até pra não magoar muita gente. Se eu for dizer o que eu penso…  É melhor você nem gravar isso. Muita gente me chama de ultrapassado, velho, superado. Mas, particularmente, sou contra o que aconteceu. Pra demolirem gastaram um monte de dinheiro. E para construir está sendo outro gasto enorme. Era melhor fazer o novo em um novo lugar.  E ainda tem a história de remodelarem a Colina para ser um Centro de Treinamento. Que deixassem o Vivaldão de pé! Fizesse do Vivaldão um Centro de Treinamento e construíssem a Arena da Amazônia em outro lugar.

EM SUA OPINIÃO, POR QUE O NOSSO FUTEBOL DECAIU?

O futebol amazonense não revela mais ídolos. Nos anos 70 e 80, fizermos muitos jogadores aqui mesmo. Clóvis, Rolinha, Pepeta, Marialvo, Sula… Lembro por exemplo que a sede do Nacional ficava cheia de gente pedindo autógrafo dos jogadores. Hoje, isso é impossível  de acontecer. Os clubes só investem em gente de fora do Estado. Trazem o jogador pra cá, pagam estadia, salário e pronto. Não há uma identificação. Quando a Associação dos Cronistas Esportivos do Amazonas (ACLEA) foi fundada, lá pelos anos 60, uma comissão de cronistas foi nas redações dos jornais e das emissoras de rádios e fizeram um acordo com os profissionais para divulgarem o futebol do Amazonas. Esse acordo foi atendido por todos os veículos de comunicação, que davam três, quatro páginas para o futebol local, com entrevistas, divulgação dos jogos e etc. Mas este espaço foi diminuindo.

A COPA DO MUNDO VAI IMPULSIONAR UM “RESSURGIMENTO” DO FUTEBOL AMAZONENSE?

Sinceramente não acredito. E acho que é daqui pra pior. Não quero parecer pessimista. Mas é o que está se desenhando. Hoje, o Campeonato é disputado em três meses, de maneira afobada, com rodadas duplas para acabar logo.

Fonte: Jornal À Crítica, domingo, em 4/8/2013.

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1 comment
  • Daniel Sales

    Caro André Viana. Boa matéria. Só um detalhe: Os jogos da Seleção do Amazonas contra a Seleção Brasileira (A e B) realizaram-e no dia 05 de abril de 1970 e não 05 de maio. Abraço.

    11 de agosto de 2013 21:53 || Responder

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