Carlos Zamith viveu 87 anos e mais da metade de sua vida foi dedicada ao jornalismo esportivo do Amazonas. Anotando informações e guardando fotografias sobre o futebol amazonense, acabou por tornar-se o maior pesquisador da história desse esporte no Estado. Todo esse material está sendo preservado cuidadosamente pela sua família e, em especial, por Carlyle Zamith, um dos filhos, que continuará a disponibilizar o material para os interessados, conforme falou ao Jornal do Commércio.
No inicio da década de 50 meu pai começou a trabalhar na rádio Rio Mar, tornou-se repórter esportivo, e ao mesmo tempo publicava no jornal impresso, uma coluna chamada Retalhos Esportivos, abordando assuntos do nosso futebol. Aquela coluna seria o precursor do Baú Velho. Mas só a partir de 1962 que ele começou a organizar o seu arquivo particular, documentando cada jogo, datas, formação das equipes, minutos dos gols, árbitros e outros detalhes. No final da década de ’60, foi para o Jornal do Commercio, onde era o editor-chefe da página de esportes e assinava a coluna No fundo do Baú.
Meu pai foi testemunha e partícipe dos fatos, capaz de recolher todas as informações vividas, sentidas e que estariam perdidas ao vento se não fosse sua visão de anota-las de punho próprio em suas cadernetas para transforma-las num tributo à memoria do desporto amazonense. Todo esse material rabiscado, fruto de suas vivências, tem hoje seu valor cultural e riqueza de conteúdo. É um símbolo do seu sacerdócio.
Todo o material está preservado e organizado. Talvez por ter sido o responsável em colocar o Baú Velho na internet, meus irmãos decidiram que eu seria o responsável pela obra que ele deixou.
No final da década de 90, junto com ele, eu passei um ano digitalizando, organizando material para a publicação do seu primeiro livro. Foi tanto material que serviu para a publicação de duas edições do livro Baú Velho, lançados em 1999 e 2008 respectivamente. Os dois volumes totalizam quase mil páginas com fatos do nosso futebol e dados biográficos dos primeiros jogadores, artilheiros e seus gols. Entre o lançamento desse dois livros há um outro que a Prefeitura de Manaus lançou, na administração do prefeito Serafim Corrêa, chamado “Histórico das 42 Decisões do Campeonato Profissional” que é um resumo histórico das decisões do Campeonato Profissional ano a ano, a partir de 1964, quando foi implantado o profissionalismo no futebol de Manaus.
Meu pai viveu 87 anos e mais da metade de sua vida, 59 anos, foi dedicada ao jornalismo esportivo do nosso Estado. Muito embora, sua casa no bairro da Chapada tenha sofrido diversas alagações depois de uma chuvarada, comprometendo seus arquivos, grande parte do seu material está digitalizado, textos, fotos, tudo em um HD de 1 terabyte que já está em minhas mãos e com certeza é fonte para a publicação, no mínimo, três livros mais.
Ficamos agradecidos ao Governador Omar Aziz, pelo anúncio que o nome Carlos Zamith será dado ao Campo Oficial de Treinamento do Coroado (COT) e também a ALEAM, na propositura do deputado Belarmino Lins, de tombar o extenso acervo de meu pai. É o valor reconhecido de um legado relevante que ele deixou para o Estado. Um povo que não conhece o seu passado não pode construir com firmeza o seu futuro. Eu sei que há uma luta e um sonho na cabeça de todos os desportistas amazonenses, que é a construção de um Museu do Esporte. Meu pai é o guardião da memória do futebol no Amazonas.
A ideia do blog nasceu com a edição do primeiro livro, em 1999. Mas só 10 anos depois que meu pai aderiu a ideia e começou a publicar no site www.bauvelho.com.br. Foi um desafio. Durante esse tempo, busquei paciência para lhe mostrar a importância da internet e ensina-lo, com seus quase 80 anos, a dominar o computador, a escrever textosno Word, imprimir, digitalizar fotos e publicar matérias em seu blog. Tudo o que eu ensinava, ele detalhadamente anotava numa cadernetinha para aprender. Tornou-se um Mestre do seu computador.
A ideia é dá prosseguimento ao site que é o seu legado, sua obra na terra que tanto amava. Além do respeito a milhares de acessos e de leitores fiéis. Muitas são as mensagens de pessoas que vivem em outros Estados ou amazonenses radicados fora de sua terra natal, em busca de informações precisas sobre o futebol e a sociedade esportiva amazonense, de ontem e de hoje.
Conversar com papai parecia uma viagem no Túnel do Tempo. Todas as tardes, ele arrastava duas ou três cadeiras para uma pracinha improvisada em frente à casa dele para um bate-papo alegre e descontraído. A praça tem até uma identificação bem humorada onde está inscrito a denominação de Praça do Lili, em homenagem ao seu grande amigo de fé, irmão camarada Flaviano Limongi. Começava então chegar as primeiras pessoas, amigos, vezes reportagens e alunos de faculdades. E o papo era sempre divertido, no alto astral. Lembro-me que ele contava estórias do bairro da Aparecida, da casa onde morava na Rua Xavier de Mendonça, do time que ele criou para poder jogar porque nunca era escolhido no par ou ímpar. Dizia ele:
“jogava de zagueiro, cintura dura, sempre usando chuteiras amarelas de couro duras, fabricadas pelo Nicolau Montemurro e positivamente eu era o pior do time, só jogava porque era o dono da bola, das camisas e ainda financiava, depois dos jogos, o refresco de xarope de Guaraná Sorbilis”.
Carlos Zamith e Flaviano Limongi são uma ponte, ligados pelo amor ao futebol. Conheceram-se ainda meninos, com 16 anos, jogavam bola no campo do General Osório, atual Colégio Militar. A primeira coluna assinada pelo meu pai no jornal impresso Retalhos Esportivos foi convite de Flaviano Limongi. Desde então sempre estiveram unidos. Se aposentaram depois de muitos anos de trabalho e estabeleceram uma nova rotina em suas vidas, incluindo entre seus compromissos sociais, encontros semanais na pracinha organizada por eles.
O temperamento de meu pai era inverso ao do Limongi que era extrovertido. Mas esse era apenas um detalhe que não impediu uma grande amizade. Amizade repleta de coincidências. Os dois nasceram e faleceram no mesmo ano, 1926 e 2013. A morte de ambos aconteceu em um sábado e foram velados no mesmo hall da Assembleia legislativa do Estado. Foram os pioneiros na imprensa esportiva amazonense. Trabalharam juntos em vários veículos de imprensa e na Federação Amazonense de Futebol (FAF). Viram a construção e a demolição do estádio Vivaldo Lima. Não perdiam um jogo sequer no Vivaldão. De tão amigos que eram, a morte de Limongi em 13 de abril, só foi contada a meu pai, por recomendação médica, 87 dias depois – sua idade. E no dia 28 de julho, domingo, quando meu pai foi enterrado, era dia de Botafogo e Flamango, time do meu pai contra o time do Limongi, no Rio de janeiro. Deu empate.
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Author: Carlyle Zamith
7 comments
Por favor, lancem mais livros, e, se puderem, reeditem os dois primeiros livros do grande Zamith.
Abrçs
23 de agosto de 2013 01:53 ||
Como e onde eu poderia conseguir a 1ª Edição do livro? Agradeço desde já.
9 de novembro de 2013 12:06 ||
Daniel, a 1a Edição do Baú Velho lançada em 1999 está esgotada. Na verdade, trata-se do primeiro volume porque o conteúdo dos dois livros Baú Velho são completamente diferentes.
Quando houver qualquer novidade, avisaremos aqui no blog. Fique ligado!
https://bauvelho.com.br/wp-content/uploads/2013/08/bauvelho1ed-8×6.jpg
18 de novembro de 2013 16:10 ||
Tudo bem Carlyle, você teria então o livro em formato digital ou algo do tipo, gostaria muito de ler o primeiro volume do livro. Se pudesse me ajudar, agradeço.
18 de novembro de 2013 19:15 ||
Estou preparando o volume 1 do baú Velho para formato digital a ser vendido ano que vem, 2014.
27 de novembro de 2013 00:21 ||
MUITO BOM, CARLYLE, VOU AGUARDAR, UM ABRAÇO.
27 de novembro de 2013 08:38 ||
Meu nome é Ayrton Surimã, sou amazonense e atualmente resido em Fortaleza. Recebi de presente de um amigo, seu livro Baú Velho, onde na capa está a foto do goleiro Clovis. Joguei no Rio Negro entre os anos de 1967 a 1972 , na escolinha e juvenil. Lendo as informações contidas no seu livro, observei uma informação que não está correta, contida às folhas 233, onde relata que o jogador Careca foi campeão da Taça Amazonas de 1970, quando na verdade os campeões fomos nós do Rio Negro, vencendo a partida final por 3X2, no Estádio do Parque Amazonense, onde fui autor de dois gols dos três do Rio Negro. Sinto não ter prosseguido minha carreira no futebol, em virtude de meu pai não ter autorizado a minha ida no time profissional do Rio Negro, devido minha menoridade, pois fui relacionado para integrar o time profissional, quando da participação no campeonato brasileiro de 1971 ou 1972, não recordando bem o ano, pois o time passaria 25 dias fora de Manaus, pois jogaria com o Ceará, em Fortaleza, o ABC de Natal, o River em Teresina, O Clube do Remo em Belém e no retorno para Manaus jogaria dois amistosos em Parintins, contra São Francisco e São Raimundo, e desta forma meu pai não consentiu pois iria perder estes dias de aula no colégio, com isto me desmotivei a continuar no futebol, apesar da insistência de Parada e Edmilson, que faziam parte da comissão técnica do Rio Negro. Quero dizer que foi um excelente presente, e que gostei demais da leitura pois fez com que recordasse o tempo e as pessoas com que convivi nesta época. Parabéns pela iniciativa do livro. Um abraço.
5 de abril de 2014 08:19 ||